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Programa de Suporte Individualizado: pilar do modelo de moradias independentes

Flavia Poppe

O principal objetivo do modelo de moradia independente é oferecer às pessoas com deficiência o mesmo direito e prazer que qualquer outra pessoa sente quando chega o momento de sair da casa dos pais para nos lançarmos na vida adulta. É garantir que sua “casa” seja sua em todos os aspectos possíveis: desde a liberdade para decorá-la como quiser e receber quem quiser, até usufruir da privacidade que cada indivíduo precisa para melhor reconhecer o limite entre si e os demais e, dessa forma, constituir sua identidade. Sair da casa dos pais e ter sua própria casa é a pedra angular da vida adulta. Trata-se de um exercício permanente de escolhas que fortalecem, simultaneamente a autoestima e autonomia.


Existem muitas pessoas com deficiência que já vivem essa realidade, saíram da casa dos pais e buscaram as adaptações e apoios necessários para ter uma vida independente. A diferença entre os casos de sucesso que já existem para algumas poucas pessoas e o projeto que o Instituto JNG quer implantar no Brasil é o caráter profissional e organizacional que o Programa de Suporte Individualizado tem. Ou seja, a responsabilidade de garantir o funcionamento do dia a dia da pessoa que “mora sozinha”[1] é de uma equipe profissional capacitada e treinada no método do Instituto JNG, que foi adaptado por especialistas e acadêmicos a partir dos instrumentos utilizados na organização Ability Housing Association, do Reino Unido. A visão de autonomia, independência, confiança e respeito pelas pessoas com deficiência da Ability Housing  é moderna, atual e condiz com essa nova geração que está se tornando adulta após ter sido beneficiada por inúmeras ações inclusivas dos últimos anos, em especial a educação. Numa moradia independente, a família tem um papel, como sempre, muito relevante quanto ao convívio social, viagens de lazer, apoio emocional e, naturalmente, contribuindo com a equipe de profissionais para proporcionar ajustes finos no programa, com foco no  bem-estar da pessoa. Soa simples, mas não é tão simples assim, porque o aprendizado é enorme, especialmente para as famílias brasileiras/latinas que são super protetoras. Não é fácil encontrar o limite e o equilíbrio entre desejar o melhor para o filho e interferir na vida dele limitando sua capacidade de escolha.


O Programa de Suporte Individualizado do Instituto JNG deve ser aplicado preferencialmente para as pessoas que pretendem ter ou já tem sua casa, própria ou alugada. A primeira etapa – preparatória - pode ser individual ou em grupo. São apresentados conceitos e informações gerais sobre os modelos de moradias no Brasil e no mundo, e aplica-se  questionários e entrevistas com o potencial morador/cliente, familiares e outras pessoas que convivem diretamente com a pessoa. A partir destas avaliações nascem dois serviços: o "Home Support" ou programa de monitoramento de rotinas que funciona como uma base de apoio durante sete dias na semana e por 24 horas. Essa unidade fica dentro do edifício onde estão situados os apartamentos de cada morador, mas não dentro da casa dessas pessoas; e o Programa Personalizado (PP) que é um Programa para desenvolvimento e aprimoramento de habilidades necessárias para que o morador possa realizar tarefas e assumir funções de cuidados com a casa e ligadas à sua rotina diária, como por exemplo cozinhar, pagar contas e eventuais deslocamentos para ir a voltar ao trabalho, à academia ou ao terapeuta. O PP pode ser contratado por horas.




Ao término dessa etapa o grupo ou parte do grupo pode se interessar em prosseguir e partir para a implantação do projeto de moradia independente ou apenas aplicar o Programa Personalizado  como “treinamento” para essa pessoa que pretende “morar sozinha”.


A primeira opção implica, ainda, em análise de alternativas imobiliárias, opções de financiamento e modelos jurídicos de contratos que garantam a maior proteção possível para os usuários, paralelamente ao detalhamento do P.S.I. (Home Support e PP)de acordo com cada indivíduo. Na segunda opção, define-se um número de horas por semana para aplicar apenas o Programa Personalizado (PP) para a pessoa que ainda vive com sua família. Nesse caso, é importante destacar que não existem objetivos terapêuticos, ou seja, as necessidades de saúde ou de outras terapias devem ser atendidas por profissionais especializados e em locais específicos (consultórios, OSC, etc). O objetivo é a aquisição de autonomia para assumir funções da vida em casa, no bairro, e eventualmente deslocamentos que fazem parte da rotina da vida do cliente tais como ir e voltar do trabalho. Trata-se de uma medição social com base em métodos pedagógicos e sob um olhar (supervisão) profissional.


O esquema abaixo apresenta de maneira esquemática as etapas a serem seguidas para a elaboração do P.S.I.[2]



O Programa funciona como um pilar sólido, sustentável, porém flexível o suficiente para se adequar à realidade do dia a dia comum numa moradia independente. O fato de ser aplicado sob supervisão profissional não significa que um bom programa de apoio deva ser implantado por profissionais selecionados apenas com base em currículos. É muito importante que a atitude profissional e dos agentes de apoio seja positiva, no sentido de ensiná-los autonomia e jamais assisti-los, fazer por eles, ou manter a dependência.


Dentre os instrumentos que recebemos a partir da cooperação técnica com a Ability Housing[1], na Inglaterra, encontra-se uma lista de perguntas que indicam o perfil do profissional desejado para o recrutamento dos agentes de apoio que devem trabalhar promovendo a aquisição de autonomia e independência dos moradores: 1) Você trata as pessoas como indivíduos únicos, cada qual com suas necessidades e seus desejos? 2) Você valoriza as diferenças entre as pessoas? 3) Você é capaz de apoiar as pessoas a exercitarem suas próprias escolhas e atingir seus objetivos? 4) Quando você encontra uma pessoa com deficiência, a priori, você enxerga as suas habilidades? 5) Você é capaz de demonstrar respeito dentro da casa de alguém que você apoia ou que ajuda a viver nessa mesma casa? 6) Você acredita que todas as pessoas, independentemente da sua vulnerabilidade ou limitação, merecem uma oportunidade de viver na sua própria casa?


O Programa de Suporte Individualizado aplicado com supervisão profissional, metodologia, metas, resultados esperados, avaliações, retroalimentação e ajustes contínuos, além de ser um pilar, permite que o modelo seja replicado e disseminado de forma à atender a sociedade como um todo.



[1] Utilizaremos esse termo para nos referir também a duas ou três ou quantas pessoas tiverem decidido compartilhar o espaço da casa entre elas voluntariamente e não a partir da escolha de seus pais ou assistentes sociais


[2] (Cristina Mascaro e Livia Rocha, 2019) – Documento Interno do Instituto JNG – Protocolo de Personalização do Programa de Suporte Individualizado, 2019.


[3] https://www.ability-housing.co.uk/

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