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7 mitos relacionados à deficiência intelectual

Algumas frases ditas tantas vezes ao longo do tempo, acabam sendo consideradas verdades incontestáveis. Contudo, precisamos tomar muito cuidado para não reproduzir algo que pode atrapalhar o desenvolvimento e a inclusão de uma pessoa com deficiência. Para esclarecer de vez, confira os sete principais mitos ainda muito propagados quando falamos de um indivíduo com deficiência intelectual.

MITO 1.

Pessoas com deficiência intelectual não podem e não devem morar sozinhas porque precisam ser permanentemente cuidadas.

Crédito imagem MCCLATCHY

Morar sozinho é um direito de todos. Se uma pessoa com qualquer tipo de deficiência, não apenas a intelectual, desejar morar sozinha, ela pode. Em muitos países avançados, pessoas deficiência moram sozinhas em apartamentos adaptados ou com um programa de suporte e apoio elaborado e supervisionado por profissionais. O lar é a pedra angular para todas as demais atividades da vida adulta de qualquer pessoa, incluindo pessoas com deficiência. A liberdade de ter uma vida própria e saber que "da porta de entrada para dentro" existe um espaço que você comanda e amplia as possibilidades de realização pessoal. Assim o indivíduo livre também deve ser responsável pelo seu cuidado, e se ele atingiu dado grau de consciência ou individualidade, ele tem direitos e deveres enquanto cidadão, e tem desejos, liberdade de escolha frente a sociedade e a família. Esse processo civilizatório não é simples, mas sua base é a autonomia do sujeito, que se constrói. Todos os pais se angustiam quando qualquer filho resolve sair de casa e, com um filho que possui algum tipo de limitação, essa angústia costuma ser maior, mas deve (da mesma maneira que para os outros filhos) ser superada. Pessoas com deficiências podem e devem morar sozinhas, se assim desejarem.


MITO 2.

Residências assistidas ou inclusivas cumprem a mesma função das moradias independentes ou sem-independentes.


Crédito imagem: acervo JNG, visita a Ability Housing

Não necessariamente. As residências cumprem e cumpriram importante avanço na luta “antimanicomial”; também aproximaram as pessoas antes consideradas “doentes” da comunidade e provaram a relação positiva entre a remoção de barreiras e diminuição de muitos tipos de transtornos. Entretanto, existem novos modelos de moradias independentes que representam um avanço ainda maior. O fato de haver uma convivência, de certa forma imposta, entre seis, oito, às vezes mais de dez pessoas com deficiência numa residência desloca o foco da atenção e apoio individual para o grupo e para os serviços e profissionais que precisam se organizar para atendê-los/assisti-los. Rotinas estabelecidas para grupo limitam a autonomia e individualidade. Existem muitas pessoas que preferem estar em grupo do que sozinhas, mas a pergunta chave é se elas escolheram com quem convivem. Existem estudos publicados que demonstram que o modelo de moradia independente costuma aumentar o bem estar de pessoas com deficiência na fase adulta, além de ampliar e potencializar novas habilidades que a rotina de um lar exige. Morar sozinho ou com alguém de sua escolha é um processo natural de amadurecimento que pode ser apoiado e mediado por profissionais que valorizem a vida independente de pessoas com deficiências. As residências resolvem de forma positiva um problema social, mas deixam a desejar quando se trata do apoderamento natural que a casa de cada um oferece. Clique aqui para entender mais sobre as diferenças entre moradias assistidas para moradias independentes.


MITO 3.

Pessoas com deficiência intelectual não podem trabalhar.


Crédito imagem: iStock

Podem e devem. Na vida adulta, o trabalho é a principal forma de integração social, cria identidade, promove autonomia e independência pela mobilidade física, pela interação social, pela renda. A Organização Internacional do Trabalho, órgão especializado das Nações Unidas, publicou em 2014 o documento “Business as unusual: Making workplaces inclusive of people with disabilities”. De acordo com o documento, a inclusão de pessoas com deficiências (PcD) no mercado de trabalho representa um diferencial competitivo para as empresas. “Não é a coisa mais certa a ser feita, é coisa mais inteligente”. Não nos referimos ao emprego, que no mundo do trabalho capitalista inclui um posto de trabalho, benefícios e direitos sociais contributivos, mas também competitividade e estresse. Existem formas mais cooperativas de trabalho, que se apoiam no desenvolvimento de habilidades e competências e estabelecem metas de produção mais coletivas. As quais são feitas através da formação de equipes supervisionadas, que equilibrem as diferenças individuais e permitam dar oportunidade de inclusão permanente e de mobilidade para os mais talentosos, disciplinados e/ou dedicados. A inclusão de pessoas com deficiências no mercado de trabalho é um processo que começa com a quebra de mitos e crenças equivocadas, fase em que o conhecimento das organizações e associações que lutam pelos direitos de PcD pode ajudar muito. Entretanto, não é suficiente reconhecer que PcD tem habilidades específicas e podem trabalhar. Medidas como incentivos às ações de responsabilidade social de empresas e a Lei de Cotas, por exemplo, são as que produzem impacto mais direto. Muitos empresários admitem que, se não houvesse a Lei de Cotas, nem teriam começado a pensar no assunto. O Brasil adotou a Lei de Cotas para deficientes em dezembro de 1999, a partir do Decreto 3.298 da Presidência da República, que regulamentou a Lei 7.853 de 1989 sobre política nacional de integração da PcD.


MITO 4.

Pessoas com qualquer tipo de deficiência intelectual ficam limitadas e têm pouca chance de serem incluídas socialmente.

As deficiências, de um modo geral, são maiores ou menores em função das barreiras que se interpõem entre a pessoa e a função que precisar exercer. Quanto mais hostil e menos adaptado for o ambiente no qual a pessoa com algum tipo de deficiência intelectual (D.C.) se desenvolver, maior será a dificuldade para se integrar. Uma forma muito forte de exclusão da pessoa com D.C. está relacionada a comunicação verbal. O atraso na linguagem faz com que a interação se distancie da realidade, mascarada por silêncios, sinais, gestos e falas cifradas que não são identificadas pela maioria das pessoas, pois não fazem parte dos códigos mais comuns. Aí se inclui mesmo a linguagem escrita aprendida na escola, que não faz sentido para os que custam a simbolizar ou não o conseguem, o que impacta também a memória, suporte para o acúmulo do conhecimento. É importante que a sociedade conviva com pessoas com D.C. para que haja uma adaptação de ambas as partes e todos aprendam que existem formas alternativas de se comunicar e para que se desenvolvam relacionamentos e  integração social. Portanto, limitar a convivência de pessoas com D.C. em todos os espaços sociais é um equívoco. Todos ganham, todos aprendem.

 

MITO 5.

Os pais só precisam pensar na autonomia e independência de filhos com deficiência intelectual quando estes tiverem atingido a fase adulta.


Crédito imagem: Nathan Anderson

Não. Autonomia e independência devem ser praticadas desde criança, tendo ou não algum tipo de comprometimento intelectual. Entretanto, a forma mais eficaz para ensinar autonomia e independência é acreditar, de verdade, que essas crianças podem aprender e adquirir um nível de funcionalidade suficiente para uma vida digna, com suas próprias escolhas. A partir da crença de que todos podem aprender, todos podemos ensinar. Existem muitos métodos que auxiliam o aprendizado de crianças com comprometimento intelectual que devem ser utilizados, mas nada substitui o relacionamento humano, as formas respeitosas e tolerantes de lidar com pessoas diferentes. No futuro, a autonomia de pessoas adultas com D.C. será uma simples e direta conseqüência da sua construção. 


MITO 6.

Pessoas com Síndrome de Down têm a sexualidade exacerbada.

Crédito imagem: iStock

O mito e o estigma que giram em torno da sexualidade de pessoas com deficiência e, especialmente, com relação à deficiência intelectual, é apenas isso, um mito.

Até o momento não existe qualquer estudo científico mostrando que as pessoas com deficiência intelectual têm algum componente orgânico, extra ou a menos, que os estimule a ser mais apaixonados ou que provoque um aumento sobrenatural da libido e, portanto, na gestão da sua sexualidade.

Aqui, é importante esclarecer que, normalmente, um ser humano sem comprometimento intelectual sabe lidar e se comportar diante de um possível evento envolvendo relações interpessoais que envolva uma aproximação à outra pessoa que se gosta ou que lhe gere prazer.

Ao ter uma condição que compromete a sua área intelectual, uma pessoa com deficiência intelectual pode ter, em muitos casos, dificuldade para manipular ou controlar adequadamente o seu desejo sexual para si mesmo e para os outros, mas esta dura realidade decorre tão somente da falta de educação sexual para essas pessoas. Esta realidade abre a possibilidade para um cenário horrível, e que tende a ir aos extremos, com a proibição dos direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência intelectual.

É, portanto, essencial que se assuma um compromisso por parte das famílias, dos centros de formação, de professores e mesmo o governo para a formação e prática correta na promoção da sexualidade saudável para adultos com deficiência. Quando se eliminam os estereótipos e equívocos sobre esta questão internamente nas famílias, nas formas de pensar dos professores e nas políticas do governo, vamos enfrentar uma realidade muito diferente da atual. Essa é a direção que, como sociedade, devemos tomar e, ainda, trabalhar muito.

Como bem descrito por Felix (2013): 

"Mamíferos ---- nesta mesma raiz encontram-se todas as palavras que têm a ver com a mama, mamãe, amor, amante, paixão, amor ----, primatas, especialmente, e seres humanos, possuímos uma necessidade primária de contato corporal agradável, prazeroso. Nascemos com a necessidade de deixar o peito nos braços da mãe que nos ama incondicionalmente.

Somos bípedes e assim liberamos os braços e as mãos. Braços articulados e mãos que terminam com dedos abertos, que agarram. Os braços são aptos para abraçar, as mãos são capazes de capturar e acariciar suavemente com as pontas dos dedos, como almofadas macias naturais e reais, um corpo cheio de terminações nervosas feitas para receber e enviar mensagens afetivas e eróticas” (p.32) 

O corpo como Félix expressa é um relevo no qual coabitam múltiplas emoções que nos permitem nos expressar de muitas maneiras. Todos os seres humanos, por natureza, precisam sentir a carícia sexual e ser acariciado, para tocar e ser tocado, para incentivar e ser encorajado, para sentir desejo, orgasmo, excitação e prazer de natureza sexual. Isso nos enche de vida e nos faz feliz.

As pessoas com síndrome de Down são mais apaixonadas? NÃO.

Requerem mais apoio e mais formação na área da sexualidade? SIM.

Se você é um parceiro nesta iniciativa, como você pode ajudar? Capacitando-se, obtendo informações, vencendo seus medos, falando, mas especialmente, acreditando que as pessoas com Síndrome de Down ou outro tipo de deficiência intelectual têm os mesmos direitos que você e eu.

Ana Magaly Madrigal Lizano, professora da Universidade Nacional de Costa Rica, trabalha em temas relacionados com a inclusão laboral, sexualidade e qualidade de vida de pessoas adultas com deficiência.

López, F. (2013). Sexo y afecto en personas con discapacidad. Madrid, España.


MITO 7.

Você não pode estimular precocemente uma criança sem um diagnóstico concluído.

Crédito imagem: iStock

É desejável e justo que haja alguma definição sobre a situação de cada criança ao nascer para que se lhe dê todas as condições de desenvolvimento e crescimento. A ciência já avançou muito na descrição de uma série de síndromes, suas causas e consequências no desenvolvimento físico, mental e intelectual que hoje permite prevenir algumas carências ainda na fase intrauterina e exames no período neonatal, que indicam diagnósticos e cuidados desde o nascimento, reduzindo os danos. Não vivemos mais em tanta escuridão e silêncio sobre as diferenças no crescimento e desenvolvimento, o que apoia também a perspectiva de médio e longo prazo de melhorar esses cuidados em diversas fases do desenvolvimento. Dificilmente o transtorno aparece isolado de dificuldades motoras na primeira infância, na expressão e na linguagem, que tanto são objeto dos primeiros olhares sobre o bebê que é o do pediatra e da família que o recebe e está ansiosa para distinguir seus traços identitários e promover sua integração no meio social. A família capaz de escutar e observar será um suporte fundamental para que a criança com algum transtorno se sinta acolhida e receba outros aportes além do amor e carinho.

Para os transtornos que se apresentam em outros momentos também o diagnóstico pode abrir uma trilha, um caminho a percorrer diante do reconhecimento da diferença.

Para a maioria das deficiências que surgem na infância e que se relacionam com "dificuldades de aprendizagem", quanto mais cedo as intervenções para estimular o desenvolvimento da criança acontecerem melhor. E como as terapias de estimulação ao desenvolvimento de bebês e crianças são muito similares, não há nenhuma contra-indicação para usá-las o quanto antes, independente do diagnóstico. Os diagnósticos médico-científicos muitas vezes tranquilizam famílias que passam a compreender melhor o que acontece com uma criança que apresenta algum tipo de transtorno, mas vale a pena pensar que, ao mesmo tempo, um diagnóstico funciona como um rótulo e, sem querer, os familiares e amigos limitam seu olhar e restringem os potenciais dessa pessoa à síndrome ou outra questão que ela tenha. Dificuldade de aprendizagem deve ser encarada apenas como uma forma diferente de aprender e quanto mais apoio e aceitação essa pessoas tenha melhor ela estará integrada a sociedade.



A sua doação vai além do valor financeiro,
ela apoia a conquista de autonomia de pessoas com deficiências.

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